Visita de estudo
O dia começou como qualquer outro dia. Ao sentir o leve toque celestial do bruto telemóvel forcei o meu corpo a largar o conforto da minha cama, esta acção foi rejeitada e demonstrou ter duas consequências já previstas mas não evitadas: uma bonita dor de cabeça acompanhada pela perda de noção de tempo. Tomei o meu banho matinal (ou duche se assim o preferirem) vesti-me com afinco (que na minha língua se traduz em “perder tempo”) e ao preparar-me para deixar o ninho olho com horror para as horas. Voo-o para o metro como se a minha vida dependesse disso, mas já era tarde. Cheguei atrasado outra vez e ainda por cima num dia de visita de estudo da disciplina de Português, cadeira que tanto aprecio.
Como resultado do meu descuido já ninguém se encontrava no ponto de encontro, vendo-me obrigado a telefonar ao meu caro colega Sr. Fialho, questionando a localização do grupo. Seguindo as indicações cedidas pelo meu camarada, rapidamente me vejo reunido com as professoras presentes, o guia e a turma, protegidos da chuva na fachada do Teatro Nacional São Carlos. Aparentemente cheguei a tempo pois no momento da minha entrada foi lido um pequeno poema, como se iniciando a visita. Abandonamos a segurança da fachada e dirigimo-nos alguns metros pela chuva parando frente a uma estranha estátua com cerca de 3m de altura, representando um homem cuja cabeça se resume a um livro. É um tributo a Fernando Pessoa encomendado pela câmara a um escultor belga. Achei deveras divertidas a metáfora e objectividade que a estatueta pretendia transmitir: Fernando Pessoa, um leitor ávido ou um livro a divisar? Após a leitura de um outro poema continuámos a nossa visita na aldeia de Pessoa parando na igreja dos Mártires. “Á e tal, uma igreja…uau” pensei eu ao contemplar a igreja que já havia passado vezes sem conta nas minhas visitas à BD Mania (um bocadinho de publicidade, desculpem). Supostamente foi nesta igreja que o nosso aclamado Fernando Pessoa foi baptizado a 21 de Julho na presença dos seus padrinhos: a Tia Anica e o General Chaby. Dois nomes que decorei puramente pelo seu impacto cómico...
Por coincidência o pequeno poeta nasceu no mesmo dia que Santo António, algo que pode ter despoletado de alguma forma o seu interesse inicial pela religião.
No interior da estrutura religiosa olhei em redor e senti-me pequenino. Uma formiga perante a imensidão de uma bota. Não sou muito bom a historia mas pelo que me pareceu o interior da igreja encontrava-se recheado de traços rococo, formas exuberantes e douradas. Algo um pouco incomodativo e enjoativo que só piorou ao notar no gigantesco órgão, pairando sobre as nossas cabeças.
-“É muito design”-.
Deixamos o templo da alma após a leitura de mais um poema (ufa) e prosseguimos com a nossa visita, conversando alegremente entre nós sobre os temas em questão ou da questão. É uma questão de perspectiva. Percorremos as mesmas ruas que Pessoa havia percorrido e parámos na mesma tabacaria que ele havia parado.
-“ Que azulejos bonitos”-.
A próxima grande paragem deu-se no único ponto que eu já sabia que Pessoa havia frequentado: “A Brasileira”. O famoso café no qual o nosso poeta havia relaxado e descomprimido da sua vida rotineira, sendo também o local de reunião do seu futuro grupo de amigos, o bando modernista Orfeu. Foi numa loja adjacente ao famoso café que a turma tomou abrigo da chuva, agora mais violenta, e que se deu a leitura de um outro poema por parte de um personagem carismático. Eu (ui ui). Li com alguma dificuldade o pequeno texto e até me engasguei, mas não pelo meu mau português mas sim pela garganta arranhada já do dia anterior.
Passámos ainda pela Rua da Assunção (bem, já estou um bocadinho cansado). Fora num desses prédios que Pessoa havia trabalhado e onde viera a conhecer o amor da sua vida, a maravilhosa Ophelia. Esta mulher deve ter sido uma das poucas pessoas, senão a única, a descobrir o lado menos melancólico de Fernando Pessoa. Apesar de nunca ter existido qualquer contacto físico entre os pombinhos a sua paixão estava espelhada nas cartas que ambos trocavam entre si, nos bons e nos maus momentos. Já perto do final da excursão prestámos uma pequena visita ao famoso “Martinho da Arcada”. O seu interior encontra-se recheado de fotografias com alusão a Fernando Pessoa sendo a mais carismática a tirada por um amigo a meio de um passeio nocturno, que apanhou Pessoa enquanto este se encontrava a tomar um belo copinho. Essa foto mais tarde chegou às mãos de Ophelia com uma bonita e hilariante dedicatória: “Fernando Pessoa em flagrante delitro”
Para terminar dirigimo-nos ao centro da Praça onde se leu um último poema, passando para as despedidas e deixando-nos com uma grande questão sem resposta: onde íamos almoçar?
Doiem-me os dedos e tenho frio,
David Cunha nº9/ 12ºH
sábado, 7 de fevereiro de 2009
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Um elemento aqui ‘pro menino
Foi naquele dia que não me lembro, na hora que não me recordo, do ano que não foi este, que a professora de Língua Portuguesa sugeriu (num tom já esquecido) que escolhêssemos um elemento, merecedor de nos representar. De uma exuberante lista recheada de quatro espantosas escolhas teríamos de seleccionar o elemento com o qual nos identificássemos mais, e, a partir do qual nos fosse possível desenvolver vários trabalhos, meditando no dito cujo.
“Isto é fácil” saltou-me da testa e partiu para nunca mais voltar pois falhei em me aperceber que não sou um pedaço de terra. Talvez no dia da fatídica escolha eu tivesse uma porção de gravilha na cabeça, suficiente para me inclinar na direcção do elemento chavascal. Ou talvez se deva ao simples facto de eu não ter dado a atenção devida ao trabalho que nos foi proposto. Seja o que for o resultado é este: eu sou terra e terra sou eu. Que posso dizer? A terra tem minhocas e eu não, ou espero bem que não. A terra é rígida e eu não, ou será que sim? A Terra é um planeta habitado por um vasto número de seres vivos e eu tenho glícidos. Afinal estava errado: tenho tudo a ver com a terra e a Terra. Pronto, final feliz, trabalho feito.
O menino não quer mais elementos, tenha piedade do menino…
“Isto é fácil” saltou-me da testa e partiu para nunca mais voltar pois falhei em me aperceber que não sou um pedaço de terra. Talvez no dia da fatídica escolha eu tivesse uma porção de gravilha na cabeça, suficiente para me inclinar na direcção do elemento chavascal. Ou talvez se deva ao simples facto de eu não ter dado a atenção devida ao trabalho que nos foi proposto. Seja o que for o resultado é este: eu sou terra e terra sou eu. Que posso dizer? A terra tem minhocas e eu não, ou espero bem que não. A terra é rígida e eu não, ou será que sim? A Terra é um planeta habitado por um vasto número de seres vivos e eu tenho glícidos. Afinal estava errado: tenho tudo a ver com a terra e a Terra. Pronto, final feliz, trabalho feito.
O menino não quer mais elementos, tenha piedade do menino…
Forro de dentro das bochechas
Tenho um forro dentro das bochechas, ou de dentro se assim o entender. Sinto uma náusea tal, devido ao forro infernal que já não sei o que comer. Tudo me dá irritações, contracções, regurgitações. Um sabor a bílis que não se aguenta!
Mal dito sejas forro infernal! A minha bainha está cozida de um modo tão rigoroso que nem a sinto nas gengivas. Pois não, se a sentisse seria estranho pois ela encontra-se nos tornozelos. Mas esteja onde estiver, o seu corte e acabamento vence de longe o maldito forro infernal. E quem é que o meteu nas bochechas? Fui eu! Estava frio e doía-me o peito, decidindo assim forrar as bochechas!
Pois.
É que com as bochechas forradas a dor amainava. E assim foi. A dor passou para o estojo, que muito indignado desafiou-me para um duelo. Ganhei por três.
A meio da dança de vitória é que me apercebi de uma seca textura roçando nos meus dentes. Foi o estojo! Aquela besta com mau perder! ‘Tás marcado ó tipo inanimado! Sem pernas não vais a lado nenhum!
E aqui estou eu, agora, sentado na minha secretária a olhar para o acusado. O malcriado nem fecha a boca… sempre com um sorriso de éclair.
Tas-te a rir? Tás Tás! Levas uma berlaitada …
Mal dito sejas forro infernal! A minha bainha está cozida de um modo tão rigoroso que nem a sinto nas gengivas. Pois não, se a sentisse seria estranho pois ela encontra-se nos tornozelos. Mas esteja onde estiver, o seu corte e acabamento vence de longe o maldito forro infernal. E quem é que o meteu nas bochechas? Fui eu! Estava frio e doía-me o peito, decidindo assim forrar as bochechas!
Pois.
É que com as bochechas forradas a dor amainava. E assim foi. A dor passou para o estojo, que muito indignado desafiou-me para um duelo. Ganhei por três.
A meio da dança de vitória é que me apercebi de uma seca textura roçando nos meus dentes. Foi o estojo! Aquela besta com mau perder! ‘Tás marcado ó tipo inanimado! Sem pernas não vais a lado nenhum!
E aqui estou eu, agora, sentado na minha secretária a olhar para o acusado. O malcriado nem fecha a boca… sempre com um sorriso de éclair.
Tas-te a rir? Tás Tás! Levas uma berlaitada …
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